| Ghosn vem ao país e promete reviravolta na Renault Brasil | ||
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| Marli Olmos O presidente mundial da Renault, Carlos Ghosn, promete uma nova fase da montadora francesa no Brasil. Ao final de uma visita de dois dias à fábrica do Paraná, o executivo anunciou que vai promover "a segunda onda" na companhia. O plano de recuperação da filial, que vem perdendo mercado a cada dia, será anunciado, segundo Ghosn, antes do final do ano, junto com o programa global de reestruturação da companhia, cujo comando ele assumiu há três meses. Ghosn ficou surpreso com o resultado de uma pesquisa que revelou que 50% dos brasileiros desconhecem que a Renault tem fábrica no Brasil. Um desalento para o grupo, que inaugurou a fábrica em São José dos Pinhais em dezembro de 1998. "Está se cortando metade da população", disse. Os demais números que envolvem a operação brasileira são desanimadores. A Renault teve prejuízo de R$ 284,3 milhões em 2004. O resultado foi pior no exercício anterior, quando a perda chegou a R$ 570 milhões. Desde a inauguração, a empresa trabalha no vermelho. É grave também a queda de participação no mercado. Com fatia abaixo de 3%, a francesa perdeu neste ano o quarto lugar no mercado brasileiro. Com estruturas bem mais enxutas, as japonesas Honda e Toyota passaram à frente. Ghosn ficou desanimado com o ritmo da linha de montagem da Renault no Brasil, bem diferente das demais montadoras instaladas no país. Funciona em apenas um turno e o total produzido no ano passado - 53.588 veículos - equivale a menos de um terço da capacidade para a qual o empreendimento foi projetado. "Isso é um desperdício", lamenta Ghosn. Ontem o executivo almoçou com 12 dos 60 concessionários da marca e pediu um esforço para motivar os clientes a se interessarem pelos carros da montadora. Falou também sobre a sua intenção de "reconstruir a identidade da marca". "Tenho muitas idéias, mas agora precisamos colocar uma pedra sobre outra para construir esse plano de longo prazo". O nível de ocupação da fábrica da Renault no Brasil hoje é menor do que o encontrado por Ghosn na Nissan no Japão, quando assumiu o comando em 1999. Segundo ele, na época, as fábricas da Nissan trabalhavam com 50% da capacidade. "O que soubemos fazer no Japão deveríamos saber fazer também no Brasil", destaca, referindo-se ao ousado projeto de recuperação da empresa japonesa, que começou a surtir efeitos em um ano. Apesar do quadro desanimador, Ghosn considera a exportação uma oportunidade para o Brasil. A fábrica de motores, instalada ao lado da linha de automóveis, é voltada à exportação e, graças a isso, seu ritmo é mais acelerado que a de automóveis. Essa unidade destina ao mercado externo 65% da produção diária de 1.050 motores. Segundo ele, o custo de produção de motores no país é 15% a 20% menor que na Europa. Por isso, segundo antecipou, o plano de mudanças na empresa deverá incluir aumento do uso da engenharia brasileira.. "Não basta vir aqui e querer exportar; é preciso ter um bom trabalho administrativo e de uso de componentes fabricados no país." Ghosn reconhece a concorrência de regiões de baixo custo de produção, como China e Índia. Mas o que estimula o executivo a apostar no Brasil são as diferenças no nível de proteção à propriedade, capacidade intelectual e melhor sistema jurídico. "As coisas começaram a mudar; mas há pouco tempo copiavam carros na China". No mercado interno, o que chamou a atenção é a composição de impostos nos carros. "Para comprar um carro no Brasil com esses impostos você precisa estar muito motivado". Segundo ele, a carga tributária é o motivo de o mercado ser menor do que o seu verdadeiro potencial. "A alta carga tributária faz com que o brasileiro precise de um esforço muito maior para comprar um carro", destaca. Ghosn aponta, ainda, a vantagem brasileira no desenvolvimento do motor que funciona com gasolina ou álcool. Segundo ele, a Tailândia também está desenvolvendo a tecnologia. "Com o petróleo a US$ 60 mais países deverão se interessar por essa tecnologia", afirma. O executivo vai visitar as filiais da Renault em outros países. "Quero ouvir todos os times para fazer uma análise lúcida para a elaboração do programa de médio prazo para a companhia." Recuperação da marca começa com novo Logan A direção mundial da Renault decidiu reforçar o projeto de lançamento de um novo carro, o modelo Logan, previsto para começar a ser produzido no Brasil em 2007. Em entrevista exclusiva ao Valor, o presidente mundial da companhia, Carlos Ghosn, disse ontem que a ampliação do projeto será um dos pontos do plano de recuperação da marca no Brasil. Segundo ele, não apenas o volume de produção será maior do que o inicialmente planejado, como também o número de versões do veículo será superior em relação ao planejamento inicial. O projeto de produzir o Logan no Brasil foi anunciado pela direção da Renault em setembro do ano passado, antes de Ghosn assumir o comando. "O plano foi anunciado, mas não falamos em volumes; agora decidimos reforçar o projeto", destaca. O executivo não adiantou os volumes de produção. As declarações de Ghosn indicam, porém, que trata-se de um projeto ousado, que inclui exportações. O Logan é um carro de baixo custo que a Renault já produz na Romênia. Segundo Ghosn, apesar de os modelos tradicionais de carros populares não darem tanto lucro como os de luxo, no caso específico desse automóvel a montadora conseguiu atingir um nível de lucratividade alto. Segundo Ghosn, todas as pesquisas da empresa indicam que tanto o Leste Europeu como o Brasil podem competir na fabricação desse modelo. "Nós podemos trazer para o Brasil a mesma estrutura de custos que montamos no Leste Europeu", completa. Antes do Logan, a Renault começará a produzir neste ano uma nova versão do modelo de médio luxo Mégane. A respeito da crise das montadoras dos Estados Unidos, onde a Nissan aumentou a concorrência nos últimos anos, Ghosn propõe uma reviravolta, a exemplo do que ele próprio fez na japonesa. Ele ressalva que os pontos fracos dos concorrentes não podem servir como indicação dos rumos de uma empresa que quer crescer. "A competição não muda tanto as coisas em determinadas situações e uma empresa nunca deve levar em conta os pontos fracos da concorrência", ressalta. Ele recomenda uma reviravolta interna. "O primeiro inimigo da Nissan era a própria Nissan", explica. "No caso das empresas americanas, os analistas estão esquecendo um pouco que quando uma companhia começa a enfrentar dificuldades não demora muito para que sejam necessárias mudanças", destaca o executivo. O exemplo do executivo pode servir para General Motors e Ford, as duas americanas que mergulharam em crises profundas nos últimos tempos. "A Nissan é um exemplo vivo e recente", acrescenta. Quando Ghosn assumiu o comando da companhia, em 1999, a japonesa somava dívidas de mais de US$ 20 bilhões. A empresa operava com metade da capacidade, sua margem operacional era de 1% e a marca estava perdendo mercado. No primeiro ano, a empresa passou a dar lucro, no segundo começou a crescer e no terceiro recuperou o retorno do capital. Hoje a margem operacional da Nissan é de 20%, a mais alta em toda a indústria automobilística. Com a reviravolta feira por Ghosn, que fechou fábricas no Japão, hoje a Nissan é maior do que a própria Renault. A Renault é dona de 44% das ações da Nissan e a empresa japonesa detém 15% do capital da montadora francesa. Mas Ghosn é avesso à palavra fusão e diz que não se trata de uma ser dona da outra. Segundo ele, essa aliança funciona porque uma respeita as diferenças da outra. "A Renault está feliz porque possui 44% das ações de uma empresa que está crescendo e lucrando", diz. Até o final do ano, Ghosn pretende lançar um plano para a Renault. Apesar das especulações no mercado em torno de uma chacoalhada igual à da Nissan no Japão, o executivo afirma que na Renault as coisas serão diferentes. "A Renault está muito longe da situação em que a Nissan estava", diz. |
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